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Com Avon, Natura se tornaria líder global em vendas diretas

A notícia de que a Natura sonda a Avon para uma possível aquisição, segundo reportagem do Wall Street Journal, surpreendeu o mercado e afetou nesta terça-feira as ações das duas gigantes de cosméticos. Os papéis da Avon registraram alta de 10,1% na Bolsa de Nova York, nesta terça-feira, fechando em US$ 2,29.
Os da brasileira subiram 1,57% na B3, em São Paulo, para R$ 28,39. Um eventual casamento entre elas daria origem à maior companhia de vendas diretas do mundo, segundo dados da consultoria Euromonitor.
Após a divulgação da notícia, a Natura informou, em comunicado, que não há negociação em curso, e nenhuma das duas empresas comentou a informação de que houve contato visando à aquisição.
O mercado global de venda direta está em expansão. O faturamento do setor deve alcançar US$ 140 bilhões este ano, segundo a Euromonitor, pouco mais que os US$ 136 bilhões registrados em 2016. A maior empresa do setor é a Amway, com 6,6% do mercado mundial.
Em seguida vêm Avon (5,2%), Herbalife (4%), Natura (2,9%) e Mary Kay (2,8%). Ou seja, uma fusão entre Avon e Natura, superaria a líder atual. Só no Brasil, somariam um exército de 2,6 milhões de revendedores. A vantagem também poderia ser um obstáculo.
– Se houvesse negócio entre as duas, teria de passar pelo crivo do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), porque somariam quase metade do mercado nacional. Seria também preciso desenhar um modelo de negócio que se beneficiasse de sinergias entre as duas companhias, mas haveria a ponta dos revendedores para ser trabalhada – pondera Rodrigo Catani, diretor de consultoria em varejo da AGR.
Analistas, no entanto, veem com reservas o possível endividamento da Natura com uma nova aquisição de grande porte, pouco depois de ter pago EUR 1 bilhão pela britânica The Body Shop.
– É uma união que faz sentido. Mais para a Avon, que está mais atrasada na diversificação de canais de venda e estratégia digital. Para a Natura, vale pela estratégia de expansão internacional, alcançando novos mercados, trazendo sinergias. Mas, por ora, ela poderia ficar como a jiboia que engoliu um boi. Ou seja, levaria tempo para absorver uma negociação desse porte – avalia Catani.
Ainda assim, a situação atual da Avon poderia se revelar um negócio de oportunidade para a Natura. No segundo trimestre deste ano, a Avon reportou prejuízo de US$ 36,1 milhões na sua operação global. No Brasil, vem perdendo espaço para a Natura.
A brasileira lidera o segmento no país com 28,2% do mercado, seguida da Avon, que detém 16,4%. A notícia de conversas entre as duas empresas surge uma semana após a Avon nomear José Vicente Marinho, ex-executivo da Natura, para presidir a empresa no Brasil, para dar uma guinada na operação.
Em 2016, a Avon vendeu 80% de sua operação na América do Norte – que cobre EUA, Canadá e Porto Rico – para o fundo de investimentos Cerberus, por US$ 605 milhões. Os recursos da transação seriam usados para apoiar o crescimento em mercados internacionais e melhorar a estrutura de custos.
A internacionalização é um caminho lógico para o crescimento da Natura. Entre 2012 e 2017, a empresa ampliou sua atuação de sete para 72 países. O avanço geográfico veio por meio da compra da australiana Aesop, em 2013, e principalmente da britânica The Body Shop. É natural que a companhia busque novos ativos no exterior, dizem analistas.
Em apresentação para acionistas em abril, a Natura explicou que o vetor da expansão é a diversificação de portfólio, inovação e ganho de escala. O grupo todo gasta R$ 8,5 bilhões em compras por ano, por exemplo. Com a criação de um departamento de compras unificadas em áreas como embalagens, logística e matérias-primas, a empresa estima poder economizar R$ 420 milhões em três anos.
Além da ênfase no canal digital, a Natura já tem 29 lojas próprias no Brasil e outras oito no exterior, além de uma centena de franquias. Para Marcos Gouvêa de Souza, especialista em varejo e diretor-geral do Grupo GS& Gouvêa de Souza, a compra da Avon aceleraria o processo de globalização da Natura.
Já outros analistas avaliam que, apesar dos ganhos de sinergia, a aquisição da Avon elevaria o endividamento da Natura, que já está alto por conta da aquisição da The Body Shop. Isso poderia aumentar o risco de captação de recursos para financiar a operação, apontou um relatório de analistas do Itaú BBA.
Outra preocupação é a alta do dólar. Considerando o valor de mercado da Avon de US$ 920 milhões, a aquisição de 100% da empresa com câmbio em R$ 4,13 faria subir de 3,8 para quatro vezes a relação entre dívida líquida e geração de caixa (Ebitda) da Natura. Eduardo Guimarães, da Levante Investimentos, estima que esse indicador poderia chegar a cinco vezes, dependendo do preço negociado.

Leia a matéria original em: O Globo