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Com retomada do varejo, vacância em shoppings pode diminuir

Despontam boas notícias no front do comércio. Veja só:

*O volume de vendas do varejo ampliado -que inclui concessionárias de veículos e lojas de material de construção paulista -subiu 2,5% no Estado de São Paulo em 2017 em comparação com o ano anterior.

*O movimento na capital paulista cresceu 5,8% em fevereiro passado na comparação com o mesmo mês de 2017.

*Projeção da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) sugere alta de 4,8% no varejo restrito neste primeiro semestre.

É o fim da devastadora crise que resultou no fechamento de mais de 200 mil lojas Brasil afora e o início de uma retomada que parece evoluir a cada dia.

A recuperação na capital paulista começou pelos setores de móveis e eletrodomésticos, com 132 lojas a mais em 2017.

As outras duas atividades com saldo positivo no ano foram equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação (127 lojas) e artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (112 lojas).

A expectativa agora é que tal recuperação, iniciada nos bairros paulistanos, poderá solucionar uma questão que nos últimos anos vêm afligindo os shopping centers: a elevada vacância.

Dados da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) mostram que, diferentemente de 2017, quando esse indicador subiu 5,7%, a perspectiva é de estabilidade ligeiramente menor, entre 5,5% e 5,6%.

Ao menos 20% dos mais de 500 shoppings instalados no país ainda enfrentam problemas de vacância e baixo fluxo de consumidores, de acordo com Nelson Kheirallah, vice-presidente da ACSP e coordenador do Conselho de Varejo, que neste ano completa uma década de atividades.

Isso porque as duas questões se interligam. “Há uma preocupação dos lojistas em ‘habitar’ mais essas lojas para melhorar o fluxo, pois isso reflete direto nas vendas”, afirma. “Mas é um trabalho que tem de ser feito dos dois lados.”

Para melhorar essa situação, os dois lados, ou seja, lojistas e representantes de shoppings – no caso, os executivos da Ancar Ivanhoe, administradora do Golden Square Shopping, no ABC Paulista -estiveram reunidos em sessão do Conselho de Varejo na sexta-feira passada (09/03).

Segundo Kheirallah, a ideia é integrar varejistas e empreendedores para discutir e tentar solucionar o problema do baixo fluxo de consumidores e reduzir a falta de ocupação, em grande parte nos empreendimentos com menos de cinco anos, que não conseguem atrair lojas-satélite para o seu mix.

“Vamos aproveitar esse momento de recuperação do varejo, pois esse projeto-piloto poderá ser replicado em outros 100 shoppings em alguns anos”, afirma.

O CASO GOLDEN SQUARE

Aberto há cinco anos, o Golden Square, localizado em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, fechou 2017 com bons indicadores.

Entre eles, uma alta de 19% nas vendas, de 28% em número de fluxo de pessoas e taxa de conversão de 69%, segundo dados apresentados durante a reunião por Carlos Galvão, superintendente do Golden Square.

Voltado ao público das classes A/B e com grandes âncoras no mix, que incluem as multinacionais Zara e Forever 21 e até uma megaunidade do laboratório CDB, o shopping enfrenta um problema comum aos empreendimentos do ramo nos últimos anos: um alto índice de vacância, que bate na casa dos 30%.

Das 200 lojas do mix, 60 estão fechadas, segundo Rodrigo Romano, diretor de shoppings da Ancar. “Fizemos um esforço grande de marketing para atrair lojistas e público, mas inauguramos com muitas lojas fechadas”, afirma.

Um quadro que não mudou muito em cinco anos: apesar da boa localização, um mix bastante atrativo e o signifitcativo investimento em marketing (entre R$ 4 e R$ 5 milhões anuais), o Golden Square tem sofrido principalmente os reflexos do desemprego no setor automobílistico, em uma região que concentra cinco grandes montadoras.

Mas há outros fatores que, segundo os lojistas presentes à reunião, atrapalham a decolagem do shopping.

Entre eles, a ausência de marcas fortes do ramo de alimentação, um trabalho mais consistente de marketing local –inclusive em mídias sociais e penetração digital -e até a “memória residual” do primeiro Golden Shopping, falido em meados da década passada.

Para mudar o quadro, o diretor Rodrigo Romano propôs um trabalho conjunto em que as partes cruzem os CRMs (os softwares de gestão de relacionamento com o cliente, na sigla em inglês) das marcas presentes para entender o que pode atrair mais o público, trazer mais lojistas e aumentar as receitas dos que já fazem parte do mix.

“Vamos usar o que aprendemos na NRF – ou seja, a troca de informações – para chegar mais rápido ao público e repercutir tudo isso em vendas”, afirma Romano. “Nosso objetivo é fazer do Golden Square não exatamente um shopping popular, mas sim democrático.”

UM ANO DIFERENTE. E MELHOR

O alto índice de vacância em alguns centros de compras, -principalmente aqueles em processo de consolidação, como o Golden Square – se deve a uma combinação de três fatores, de acordo com Luiz Alberto Marinho, sócio-diretor da consultoria GS&Malls.

Primeiro: a crise, que fez com que varejistas, grandes e pequenos, reduzissem o movimento de expansão. “A comercialização de lojas-satélite está difícil por conta da insegurança do pequeno em abrir novas lojas”, concorda Kheirallah, da ACSP.

Segundo: muitos deles foram inaugurados num momento mais difícil do varejo, e agora têm taxa de ocupação –ou seja, de espaço para lojas -superestimado em relação ao número de consumidores que circulam por eles.

Finalmente, uma característica que começou a ganhar força nos últimos cinco anos, mas ainda está sendo absorvida pelo varejo: os shoppings se transformaram de centros de compras em “espaços de convivência e conveniência, em o físico se integra com o digital”, segundo o coordenador do Conselho de Varejo da ACSP.

“Eles não dependem mais do mix de lojas para decolar, mas de fatores mais complexos, como um ambiente agradável, espaço para eventos, pontos de wi-fi para estudar ou trabalhar, locais para pagar contas, comer, passear…”, diz Marinho. “É uma mudança de vocação que faz toda a diferença.”

Para ilustrar essa mudança, o consultor menciona pesquisa recente da Abrasce revelando que apenas 37% dos consumidores vão ao shopping fazer compras.

“Esse número, por si, fornece a resposta: o mix é parte da solução, não a solução completa.”

Mas 2018 começou diferente, segundo o especialista: um levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que o saldo entre aberturas e fechamentos de lojas neste ano será positivo em 20,7 mil estabelecimentos comerciais – o maior desde 2013.

Embora isso não seja suficiente para resolver os problemas de vacância, segundo Marinho -em 2017, esse saldo ficou negativo em 19 mil -, a projeção da CNC mostra uma profunda mudança de comportamento do varejo em retomada.

“O cenário tende a ser mais positivo. E não só para o Golden, mas para todos os shoppings que vivem situação semelhante. Basta fazer a lição de casa”, finaliza.

Leia a matéria original em: Diário do Comércio