Facebook Twitter Youtube Linkedin |

Multifranqueados têm bons ganhos de escala

O padrão ‘uma franquia por empreendedor’ faz parte do passado no Brasil. É cada vez mais comum franqueadores que aceitam – e até estimulam – empreendedores a ter mais de uma unidade. Além do amadurecimento do setor no país, a piora da conjuntura econômica dos últimos anos, que torna o ambiente de negócios mais incerto, é fator adicional ao crescimento dos franqueados multiunidades – sejam elas da mesma marca ou de marcas diferentes. Enquanto franqueadores buscam gestores já testados para crescer com mais segurança, os empreendedores podem obter ganhos de escala, corte nos custos e, com isto, aceleram o retorno das novas unidades.

“A boa relação entre franqueador e franqueado é essencial neste processo de crescimento de empreendedores com multiunidades, que está sendo feito de forma sólida, consistente”, comenta Artur Grynbaum, presidente do Conselho da Associação Brasileira de Franchising (ABF). Estudo da entidade, em parceria com o Grupo de Franquias da USP de Ribeirão Preto (SP), revela que 84% das redes pesquisadas têm presença de franqueados multiunidades.

A proporção de redes que atuam com este perfil de parceiro vem crescendo: 68,5%, em 2016, e 74,5%, em 2017. Na média, as redes analisadas contam com 28,3 franqueados multiunidades. “Este movimento é mais percebido em segmentos de margem menor e naqueles em que é mais rápido bater no teto do faturamento, como o varejo. Buscar novas unidades é a única forma de crescer”, comenta Eugênio José Silva Bitti, professor da USP e responsável pelo estudo.

Diluir custo, otimizar estruturas de RH, TI e contábil, além de ganhar com o volume maior são pontos positivos citados por Bitti para o franqueado. Já o franqueador, pontua Grynbaum, precisa olhar com cuidado a capacidade financeira de quem pleiteia novas unidades, assem como a capacidade de gerir estas minis rede. “É necessário verificar se o franqueado tem a estrutura necessária para expandir o negócio, sem desguarnecer a primeira unidade.”

A necessidade de elevar os ganhos foi um dos motivos que levaram o franqueado Alexandre Burger Saidel, da rede de lavanderias 5àSec, a abrir novas unidades da marca. “Aprendi muito com a primeira loja, em 2005, mas queria crescer e não via muito sentido em sair do ramo, após tanto aprendizado”, comenta Saidel. Ele inaugurou a segunda unidade 5àSec em 2008. “Uma franquia nova você leva de dois a três anos para aprender, na prática ganhei este tempo com novas unidades da mesma marca, além de não repetir alguns erros.”

Hoje, ele tem nove lojas 5àSec, quatro no modelo padrão – fazem todos os serviços – e cinco satélites, que dependendo do trabalho captam e repassam para as lojas padrão.

Movimento é mais percebido em ramos de margem menor e nos quais é mais fácil bater no teto do faturamento

“A crise fez com que as margens caíssem muito e a solução foi crescer em unidades para ganhar escala. Mais volume maior e custo menor”, comenta o franqueado da 5àSec. “Somos bons executores, mas não podemos nos acomodar, cada unidade tem suas especificidades, seu público e precisamos acompanhar de perto.”

É este o principal alerta feito pela consultora Claudia Bittencourt, diretora geral e sócia do Grupo Bittencourt. “É um desafio, e não uma desvantagem, atuar como se fosse uma mini rede. Isto impõe cuidados extras com a gestão, mas pode ser um bom negócio”, comenta Claudia. “O retorno vem mais rápido nas demais unidades, após a fase de aprendizado e erros com a primeira.” Foi o que aconteceu com Odair Rodrigues, franqueado da rede de pizzaria Bella Capri.

A primeira unidade foi aberta em 2010 e a segunda, todas em Ribeirão Preto, só saiu do papel em 2017. “Precisei adquirir know-how com a primeira iniciativa, fui agregando conhecimento e não tinha por que não aproveitar”, comenta Rodrigues.

Segundo ele, o retorno da segunda unidade foi mais rápido, tanto que o empresário inaugura em julho a terceira Bella Capri na cidade. Sobre redução de custos, o empreendedor diz que no segmento dele é menor, ocorrendo apenas nos 15% de produtos que ele não compra do franqueador.

“Em bebidas e hortifrúti negociamos direto e em conjunto para as unidades, o que me dá poder de barganha.” Nos planos dele está uma quarta loja, já em 2019. “Já obtive todo o retorno do investimento feito na franquia e vou aproveitar novas oportunidades.”

A presença de franqueados multimarcas (proprietários de duas ou mais unidades de diferentes redes) também cresceu nos últimos anos, segundo a pesquisa da ABF, mas é uma alternativa que exige cuidado adicionais. Em 2018, eles são 54% dos franqueados das redes que atuam com este perfil de empreendedor, em 2017 representavam 43% e no ano anterior eram 38%. Dentre as redes pesquisadas, 81,6% admitem de alguma forma o modelo de franqueados multimarcas) e 18,4% não permitem tal modelo.

Leia a matéria original em: Valor Econômico (link disponível apenas para assinantes)