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Novas regras de saque do FGTS devem animar o varejo, dizem especialistas

A decisão do governo federal de ampliar as regras para saque das contas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) deve dar um ânimo ao varejo nos próximos anos. Para especialistas, o dinheiro extra deve não apenas estimular o consumo de bens e serviços como também ajudar o consumidor endividado a quitar os débitos – e, assim, ganhar fôlego para fazer novas compras parceladas.

O economista Flávio Calife, da empresa de análise de crédito Boa Vista SCPC, lembra que a liberação de recursos de contas inativas, em 2017, colaborou para as vendas do varejo naquele período terem a primeira alta em dois anos. Desta vez não deve ser diferente uma vez que o dinheiro deve aliviar o endividamento do consumidor – e o risco de inadimplência.

O número de brasileiros com dívidas em aberto vem caindo desde 2016 – nos últimos 12 meses a queda foi de 3%. A escassez de empregos com carteira assinada e o crescimento pífio da economia neste ano ainda são um risco – daí que a liberação do FGTS é providencial, lembra Calife.

– Mais da metade dos recursos devem ser utilizados para o pagamento de dívidas. Uma outra parte deve se concentrar no consumo e uma menor parte na poupança. Mesmo o pagamento de dívida, contudo, também pode ser positivo para o comércio, já que pode representar a volta de consumidores ao mercado de crédito – diz Calife.

Ajuda dos juros

Para Alexandre Pierantoni, diretor da operação brasileira da consultoria global Duff & Phelps, dedicada às tendências do varejo, a ampliação das regras para saque do FGTS combinada a um cenário de redução da taxa básica de juros, a Selic, prevista para ocorrer até o fim de 2019, deve ampliar o consumo de curto, médio e longo prazo.

– A liberação do FGTS, por si só, pode ampliar as vendas de bens de consumo rápido, como alimentos e bebidas. A medida, em conjunto com juros menores e uma maior liquidez da economia, deve estimular o crédito de longo prazo e abrir espaço para aquisições de maior porte, como de bens duráveis – diz Pierantoni.

Para Marcos Gouvêa de Souza, diretor-geral do Grupo GS& Gouvêa de Souza, especializado em varejo, dada a estagnação da economia, qualquer medida que possa trazer algum tipo de estímulo é positiva. Para o especialista, o desemprego não cede, a massa salarial não cresce, e o crédito ao consumo continua caro e escasso.

– Todo esse quadro traz desânimo ao consumidor. É como se estivéssemos na fase mais aguda da recessão vivida pelo país. Então qualquer fato novo para ajudar a economia é positivo. Isso tem efeito no humor das pessoas e melhora o nível de confiança. Se pensarmos em cidades grandes como Rio e São Paulo, o valor de R$ 500 pode ser pequeno. Mas para zonas rurais do país, regiões do Nordeste e Centro Oeste a liberação ajuda muitas famílias – disse Gouvêa, que observa entretanto que outras medidas, como o avanço da reforma da Previdência, precisam tornar-se realidade para que a economia volte a crescer de forma sustentável.

Fernando Pimentel, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), lembra que pesquisas feitas em 2017, quando houve liberação de R$ 45 bilhões de recursos do FGTS de contas inativas, pelo menos 25% foram destinados ao consumo. Desse total, lembra Pimentel, 38% foram gastos com vestuário.

– Se esse percentual se repetir desta vez, nosso setor terá uma injeção de R$ 4 bilhões. Não é um valor expressivo, porque nosso segmento movimentra R$ 230 bilhões por ano. Ninguém imagina que seja possível reativar a economia com esses saques, mas a medida é positiva, porque o consumidor pode usar os recursos da maneira que melhor achar. Na prática, essa será mais uma modalidade de saque do FGTS, já que existem diversas outras – diz Pimentel.

Para o economista da Associação Paulista de Supermercados, Thiago Berka, a expectativa é que os brasileiros usem o benefício do FGTS para pagar parte de suas dívidas, o que deixaria a população com mais dinheiro para outras compras, assim como aconteceu em 2017. Essa equação deve resultar em um aquecimento nas vendas do setor, que estão em queda de 0,75% no acumulado de 2019.

– Como primeira linha de frente do consumo, o consumidor poderá direcionar parte para compras de alimentos e bebidas em volume maior, marcas melhores ou aumentar a frequência das compras, tirando o setor da situação recessiva que se encontra em 2019 – concluiu o economista.

Leia a matéria na íntegra em: O Globo