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O delivery do canguru

Longas filas de clientes à espera de uma mesa se tornaram parte da fachada dos restaurantes Outback Steakhouse no Brasil nos últimos anos – e simbolizam o sucesso da marca entre os consumidores brasileiros. Isso porque a rede fundada em 1988 por três amigos americanos, fãs do visual épico do filme Crocodilo Dundee, filmado no deserto australiano, foi precursora no conceito “casual dining” – um meio-termo entre as lanchonetes populares e a alta gastronomia.

No Brasil, onde o Outback começou a funcionar em 1997 e hoje possui 95 unidades em 12 Estados, a rede vai apostar no crescimento de sua nova frente de negócios: o delivery. A estratégia do grupo Bloomin’ Brands, que também detém as bandeiras Abbraccio e Fleming’s, é turbinar as vendas atraindo consumidores que preferem comer em casa. “Uma das nossas dúvidas era entender esse mercado e se essa oferta canibalizaria as vendas nas nossas lojas”, diz Pierre Berenstein, diretor-presidente da Bloomin’ Brands no País. “Percebemos que não. A pessoa que opta pelo delivery não pensava em sair para comer num restaurante. Acabamos gerando uma receita 100% adicional.”

Já são 11 restaurantes da bandeira Outback e três unidades da Abbraccio com entrega em São Paulo e no Rio de Janeiro pelo aplicativo móvel iFood. Até o final do ano, ao menos 30 unidades estarão habilitadas para fazer o envio dos pedidos. Segundo Berenstein, foi possível identificar um acréscimo médio de 10% no faturamento dessas lojas com a iniciativa. Mas, apesar das projeções exitosas no horizonte, a ideia não é desperdiçar o potencial de vendas dos pontos físicos. Para assegurar a qualidade dos pedidos, alguns pratos tradicionais, como a Bloomin’ Onion, a cebola empanada em formato de flor, não estão sendo ofertados pelo aplicativo.

“Não entregamos a cebola pelo delivery porque pode chegar mal, dependendo do tempo em que a entrega for feita”, diz Berenstein. Mas não se surpreenda se você receber um convite para desfrutar o prato em uma das lojas. “Muitas vezes, damos um card para a pessoa comer a cebola de graça em um de nossos restaurantes”, completa. Para Cristina Souza, diretora-executiva da GS&Libbra, do grupo Gouvêa de Souza, a estratégia faz sentido. “Muitas vezes as empresas focam no delivery e se esquecem do relacionamento com o cliente. É óbvio que nenhuma promoção de cupom é 100% assertiva, mas é uma forma de divulgar e fazer com que o consumidor se sinta bem-vindo nas lojas também”, comenta.

De olho no potencial de crescimento desse mercado, a Bloomin’ Brands adquiriu, em abril, uma parcela minoritária do Delivery Center, empresa de tecnologia voltada para a área de entregas. Por questões contratuais, o grupo não revela a quantia envolvida na transação. “Hoje, nós usamos o portal do iFood e a operação do Delivery Center. Num futuro próximo, vamos ter uma plataforma de entregas nossa, que estamos desenvolvendo com o Delivery Center”, projeta Berenstein. Além da Bloomin’ Brands, a gestora de shopping centers Multiplan desembolsou R$ 12 milhões para ter 18,8% do negócio. Outras sócias do Delivery Center são a BRMalls Participações, rival da Multiplan, e o empresário José Galló, que foi CEO da Lojas Renner de 1999 a abril deste ano. “Apesar de ter uma representatividade de apenas 8% nas vendas totais de bares e restaurantes, o delivery cresce bastante no País”, diz Cristina.

DOIS MIL PARABÉNS POR DIA Desbravar esse novo mercado foi um ato necessário para que o grupo recuperasse o fôlego para investir no País. Em 2018, a Bloomin’ Brands viu uma contração de 1,5% na receita de suas lojas maduras, que funcionam há mais de um ano. No primeiro trimestre, no entanto, os números deram uma guinada para cima e as vendas dos restaurantes brasileiros subiram 3,7%, já com o impacto das entregas por meio do iFood. A empresa não revela números de faturamento por região, mas a consultoria Euromonitor calcula que a receita da empresa no País tenha sido de R$ 686,4 milhões em 2018.

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) estima que o mercado de alimentação fora do lar obteve ganhos reais de 2% no último ano, com um faturamento consolidado de R$ 175,6 bilhões. Poderia estar crescendo mais, segundo Percival Maricato, presidente da subsidiária paulista da entidade. “A alimentação fora de casa tende a voltar a crescer com mais vigor por conta do aumento de opções de qualidade no mercado e do incremento do delivery. Mas outros valores conjunturais, como a violência nas grandes cidades e a crise econômica do País, ainda impedem avanços em larga escala”, diz.

O Outback trouxe uma proposta de valor até então inédita no mercado brasileiro. A bandeira virou exemplo bem-sucedido de como promover uma experiência de compra para o varejo. Não se espante se numa mesa próxima a você, um grupo de funcionários surja repentinamente portado com velas e um bolo para cantar parabéns para algum cliente. “Nós cantamos mais de 60 mil parabéns por mês”, diz Berenstein. O visual e o cardápio inspirados na cultura australiana também caíram bem ao gosto do brasileiro.

Aproveitando uma demanda que surgiu com os novos comportamentos de consumo, a rede lançou neste ano três opções de lanches e porções vegetarianas. “Nós conseguimos entregar o mesmo sabor característico em todas as receitas. Investimos um valor alto em pesquisa e desenvolvimento para ter certeza que nós vamos atender o consumidor da melhor forma possível”, conta o diretor-presidente. “Não queríamos simplesmente colocar uma saladinha e dizer que tínhamos um prato vegetariano.” A julgar pelas filas em seus restaurantes, a estratégia deu certo.

Leia a matéria original em: IstoÉ Dinheiro