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O Dia depois de amanhã

Em uma crise financeira global desde 2017, a rede espanhola Dia, conhecida pelo seu logotipo vermelho e branco seguido de um sinal de porcentagem, tem penado para atrair clientes, que agora contam com mais mercados próximos de casa e com experiências de compra que fogem do tradicional modelo de negócio do varejo alimentar. Em comunicado, a própria companhia reconheceu que o ano passado cravou o período mais crítico da operação, fundada há 40 anos. Os números confirmam esse contexto preocupante. Até 2016, o volume de vendas teve um crescimento anual na ordem de 10% e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) chegava a € 625 milhões. Agora, esses indicadores são de -14,9% e € 337 milhões, respectivamente. No ano passado, o valor de mercado do grupo caiu mais de 90%. Hoje, a rede está avaliada em € 398,2 milhões. Uma oportunidade, porém, pode dar um novo fôlego para a recuperação da rede de supermercados.

A L1 Retail, divisão de Varejo do grupo de investimentos LetterOne, do bilionário russo Mikhail Fridman, lançou uma oferta voluntária pública de aquisição (OPA) para comprar todas as ações da companhia por cerca de € 300 milhões. A proposta passa ainda pela injeção de € 500 milhões no capital da varejista. Em comunicado, Fridman, que já é dono de uma fatia de 29% da operação, afirmou que o seu objetivo é trazer “um novo pensamento, estratégia e solução de financiamento” para gerar a virada nos negócios nos próximos 5 anos. “O Dia está comprovadamente passando por sérias dificuldades e precisa urgentemente de uma transformação”, diz. Em meio às conversações, um fator pode remodelar os termos colocados na mesa.

A rede informou que contratou recentemente uma auditoria externa para avaliar as suas finanças. A alegação é de que o procedimento é comum em organizações que buscam melhores práticas. DINHEIRO apurou, contudo, que a empresa abriu uma investigação para apurar uma possível fraude contábil na operação brasileira, que hoje é responsável por 18,1% das vendas globais. Segundo uma fonte ligada ao setor, a situação é grave, já que pode ter ocorrido uma manipulação nos números dos relatórios. Procurada, a KPMG, responsável atual pela auditoria do Dia, não comentou o assunto “por motivos de cláusulas de confidencialidade.” Se confirmada a irregularidade, pode haver ajuste no preço da OPA.

CRISE LOCAL No Brasil, o segundo maior mercado da companhia, a situação também é crítica. As vendas chegaram a cair 18% entre 2017 e 2018. Segundo analistas do setor, alguns fatores explicam a queda das receitas, como a valorização dos atacarejos (os pontos comerciais que concentram vendas por atacado e varejo) durante o período de crise econômica. “As famílias passaram a buscar preços melhores e o Dia ficou em um limbo entre o supermercado tradicional e os atacarejos”, diz Ana Paula Tozzi, CEO da consultoria AGR. Esse é, inclusive, um dos movimentos percebidos pelos grandes hipermercados.

De olho nas mudanças, as grandes redes do ramo começaram a abrir lojas de vizinhanças, também conhecidas como unidades Express. É o caso do Grupo Carrefour, dono de 116 estabelecimentos dessa linha, e do Pão de Açúcar, do grupo GPA, com 80 pontos nesse formato. Na visão de especialistas, o aumento da oferta de lojas e o fato de a rede espanhola não ter um portfólio forte com produtos perecíveis e frescos, como carnes, frutas e verduras, são componentes que também contribuem para a situação delicada da operação. “O mercado hoje não é mais tão simples e os concorrentes não são mais tão óbvios”, diz Ana Paula.

A entrada de uma nova liderança é vista como uma boa alternativa para o Dia, especialmente como uma saída para ter maior velocidade em suas estratégias e alcançar os seus rivais. Mas para isso, a rede precisa ir além dos preços baixos, avalia Alexandre Van Beeck, sócio-diretor da GS&Consult, empresa de consultoria com foco em varejo. O aplicativo do programa de fidelidade do Pão de Açúcar, por exemplo, estampa uma solução pensada para driblar a crise e ganhar a preferência do brasileiro.

Com a plataforma, o consumidor recebe sugestão de descontos baseados no seu histórico de compras que são abatidos no ato do pagamento. “Hoje, a utilização de dados que o universo digital proporciona é uma necessidade para melhorar a operação do varejo alimentar no Brasil”, afirma Van Beeck. Em meio aos desafios, o Dia informou que está em “transformação profunda” e que planeja lançar um novo formato de loja. Por ora, resta aguardar quem estará à frente da operação nessa jornada.

Leia a matéria original em: IstoÉ Dinheiro